Aceitar a carona que em nada ajudou. Andei dois quarteirões a mais. Tudo para não ouvir a insistência de quem acha que sabe o que é melhor. Agradecer sorrindo para o olhar de contentamento. O lado bom foi andar calmamente pela rua e ver um velhinho sentado na ultima poltrona do ônibus. Ele tinha um megafone que imitava uma sirene de policia e o colocava na janela, acho que para abrir caminho no trânsito. Talvez estivesse com pressa. Talvez fosse louco.
Tentar entender o constrangimento que senti ao encontrar pela segunda vez seguida em menos de uma hora os mesmo dois meninos que por anos foram incógnitas e que ha poucos minutos estavam gargalhando comigo enquanto falavamos de filmes de terror.
Mais uma vez a biblioteca da universidade me deixará levar o livro que detesto e tanto preciso só após a espera de uma hora. Só uma? Nada de quatro horas como da outra vez?
Passo o tempo na livraria. O senhor ao lado me olhava estranho. Menina de fones de ouvido, folheando "Ser e nada" e com os pés descalços. O terceiro encontro da noite com os meninos incógnitas. Calço as sandálias e saio de fininho.
18h43 Sento no banquinho do jardinzinho inho inho. Pés doendo da maldita sandália. Me agrada a iluminação do lugar, enquadro todas as fotos que eu gostaria de tirar daquelas janelas estranhas e acesas. Isso se eu tivesse coragem de tirar fotos no meio da rua, do meio da rua. Lembrei da conversa séria que tive naquele banquinho. Lembrei das outras. Quase todas as conversas importantes da minha vida foram em banquinhos, e as que não foram eu ainda não tive coragem de iniciar.
18h56 Faltam quatro minutos mas eu vou esperar. Ser pontual com meus compromissos marcados com ninguém.
A luz da janela apagou. Calcei as sandálias nos pés doloridos. Já não sei como é ter doze anos. Não sei dirigir e nunca dei uma carona. E se eu gritasse no megafone? Só sei do nome de um dos meninos da dupla incógnita. Repreendi a vontade-revolta que senti de arrancar as páginas daquele livro aborrecido. As pilhas do discman acabaram, dali em diante eu teria que suportar os barulhos do mundo.
Tudo uma droga, sabe? A espera, o meu cansaço, a minha irritação, o caminho que ainda teria que percorrer, o pensamento obsessivo sobre banho e chocolate, o ônibus, o barulho do ônibus, as pessoas no ônibus... Droga, droga, droga.
Nada.
Isso tudo seria nada.
Se.
Se você me ligasse.
Me chamasse pra jantar ou simplesmente quisesse saber se amanhã haveria ou não aula.
Você acha que eu gosto de me sentir assim?
Tanto faz. Essa foi só uma hora das outras tantas que passei pensando em você.
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