sábado, 12 de abril de 2008

07/07/2005

Olhando pela janela do ônibus,
o céu escuro
tive a certeza de que só queria que toda a luz ao meu redor apagasse.
Não ver nada
só sentir o frio e ouvir os trompetes.

Me perdia nas cenas do lado de fora da minha vitrine suja.
Que estranheza é essa que não me pertence?
Tudo tão absurdo.
As pessoas passavam por mim e me causavam calafrios.
pessoas.
Suas cores e manchas.

O respeitável senhor que tirava os óculos para ler sua revista de futilidades
(dias na vida de pessoas distantes)
Camisa amarela e uma mala que parecia vazia
(dias na minha vida distante)
Pelo reflexo eu via os rostos sorridentes
ele lia
Parou um bom tempo na foto da moça do creme hidratante.
Como se procurasse a beleza.
Esse tipo de beleza que vem de graça. Num saquinho de 2 gramas,
só pra gente saber como é.

E como seria bom se as luzes se apagassem de verdade
E não houvesse mais necessidade de cores, manchas, sorrisos e reflexos.
Só o frio da janela, o trompete e o medo da chuva na minha roupa branca.

E foi assim que, logo eu, desejei pela primeira vez ficar no escuro e não saber
(não saberia nem de ti).

Com essa mania de pensar em fugas e escolher palavras para longe de mim, quase perco a parada.

Quem sabe onde eu iria parar?

quinta-feira, 15 de junho de 2006

Vermelho

Tudo vermelho. Ainda.
Sorrir com aquele jeito ingênuo. Receber um ácido quadrado em troca.
As pessoas do mundo não sabem o que querer.
Eu também não sabia.
Talvez isso explique o sorriso ingênuo.
Mas nunca quis o ácido. Sempre busquei o melhor do azul.
E pensam que não falo nada por não querer Não passa de um "não-saber".
'Já teve medo de sua própria voz?'
Eu pensava em silêncio.

Bobagens.
Passo mais tempo escrevendo sobre essas coisas de minha vida do que vivendo-as.
As pequenas.

sexta-feira, 28 de abril de 2006

280406

Uma hora e meia de pé ouvindo a menina de doze anos falando sobre t-o-d-o-s os filmes infantis que ela já assistiu ao longo de sua vida.

Aceitar a carona que em nada ajudou. Andei dois quarteirões a mais. Tudo para não ouvir a insistência de quem acha que sabe o que é melhor. Agradecer sorrindo para o olhar de contentamento. O lado bom foi andar calmamente pela rua e ver um velhinho sentado na ultima poltrona do ônibus. Ele tinha um megafone que imitava uma sirene de policia e o colocava na janela, acho que para abrir caminho no trânsito. Talvez estivesse com pressa. Talvez fosse louco.
Tentar entender o constrangimento que senti ao encontrar pela segunda vez seguida em menos de uma hora os mesmo dois meninos que por anos foram incógnitas e que ha poucos minutos estavam gargalhando comigo enquanto falavamos de filmes de terror.
Mais uma vez a biblioteca da universidade me deixará levar o livro que detesto e tanto preciso só após a espera de uma hora. Só uma? Nada de quatro horas como da outra vez?
Passo o tempo na livraria. O senhor ao lado me olhava estranho. Menina de fones de ouvido, folheando "Ser e nada" e com os pés descalços. O terceiro encontro da noite com os meninos incógnitas. Calço as sandálias e saio de fininho.
18h43 Sento no banquinho do jardinzinho inho inho. Pés doendo da maldita sandália. Me agrada a iluminação do lugar, enquadro todas as fotos que eu gostaria de tirar daquelas janelas estranhas e acesas. Isso se eu tivesse coragem de tirar fotos no meio da rua, do meio da rua. Lembrei da conversa séria que tive naquele banquinho. Lembrei das outras. Quase todas as conversas importantes da minha vida foram em banquinhos, e as que não foram eu ainda não tive coragem de iniciar.
18h56 Faltam quatro minutos mas eu vou esperar. Ser pontual com meus compromissos marcados com ninguém.
A luz da janela apagou. Calcei as sandálias nos pés doloridos. Já não sei como é ter doze anos. Não sei dirigir e nunca dei uma carona. E se eu gritasse no megafone? Só sei do nome de um dos meninos da dupla incógnita. Repreendi a vontade-revolta que senti de arrancar as páginas daquele livro aborrecido. As pilhas do discman acabaram, dali em diante eu teria que suportar os barulhos do mundo.
Tudo uma droga, sabe? A espera, o meu cansaço, a minha irritação, o caminho que ainda teria que percorrer, o pensamento obsessivo sobre banho e chocolate, o ônibus, o barulho do ônibus, as pessoas no ônibus... Droga, droga, droga.
Nada.
Isso tudo seria nada.
Se.
Se você me ligasse.
Me chamasse pra jantar ou simplesmente quisesse saber se amanhã haveria ou não aula.
Você acha que eu gosto de me sentir assim?
Tanto faz. Essa foi só uma hora das outras tantas que passei pensando em você.

terça-feira, 25 de abril de 2006

"Nada"

Sento ao lado dela, respiro fundo de propósito, bato o pé e suspiro.
É claro que ela sabe, mas sempre espero que pergunte: "O que foi que aconteceu? Que lhe chateou na escola? Quem mexeu com você? (...) É, você não diz nada mas eu sei que aconteceu alguma coisa. Eu conheço você. Conheço você ha 21 anos, quem sabe até mais."
Já posso voltar pro nada.
Quando eu fazia isso antes, costumava melhorar. Eu não precisava dizer nada, só saber que alguém percebia.
Hoje já não funciona, mãe. E eu não sei o por que.